Das aulas de física, sabemos que dois objetos se encontram quando ocupam a mesma posição e no mesmo instante. Assim, resumidamente um encontro é a simultaneidade do espaço e do tempo, ou seja, ele se dá quando estamos com alguém ou algo, no mesmo lugar e na mesma hora. Analogamente, podemos dizer que um desencontro se dá quando dois objetos não estão no mesmo lugar no mesmo instante ou quando ocupam a mesma posição em momentos distintos.
Mas deixemos de lado o jargão da física. Quase tudo na vida é desencontro, isso é certo. Quantos de nós já virou a esquina e nunca saberá que um grande e querido amigo que não via há tempos, passou por ali segundos antes? Quantos de nós já passamos pela mesma esquina em instantes diferentes, pisamos no mesmo ponto e nunca daremos conta disso? Os desencontros são muito mais comuns que os encontros, mas em geral estão escondidos, camuflados, inatingíveis.
Você que me lê, deve estar se esforçando para entender o que é que tudo isso tem a ver com a trilha que fizemos no domingo em Vinhedo. Bom, acho que já é hora de me explicar, de ser mais claro. Para isso preciso retroceder no tempo (mas não no espaço que continua sendo Vinhedo), para 1991, quando eu morava ali e acreditava que o poder público poderia ser regido pelas leis da lógica e da decência.
Ali, exatamente ali, onde entramos na trilha, existia outrora a placa que vocês podem ver na primeira foto. Neste ano de 91, conseguimos a doação de um terreno de 5 mil m2 para a construção de um observatório astronômico municipal para atender escolas, a população em geral e propiciar cursos de formação continuada para professores. Conseguimos a doação de um telescópio refrator alemão, feito na década de 20 e comprado pelo Colégio S. Bento de S. Paulo. Depois de muito trabalho de convencimento, conseguimos aprovar na Câmara de Vereadores da cidade uma lei municipal que criava o Observatório Astronômico Municipal de Vinhedo e a placa que vocês podem ver na foto foi colocada pelo própria prefeitura permanecendo lá por uns dois anos. Ontem, logo que entramos na trilha era possível ver, à esquerda, uma grande caixa d'água vertical de concreto no terreno com mato crescido. Um pouco abaixo daquele ponto, um dia foi montado um circo para o lançamento da pedra fundamental do Observatório.
Estudantes foram convocados para testemunhar o grande feito da administração local. Até bandinha tinha no dia. Mal poderia imaginar eu que o Observatório nunca sairia do papel; o então prefeito mandou construir ali uma caixa d'água, que está lá até hoje e não sei a quem serve. Em verdade, nunca se pretendeu construir ali um observatório ou qualquer outro benefício parecido, mas sim, conseguir atrair algum empreendimento no local para valorizar os terrenos vizinhos. Era preciso algum otário bem intencionado para levar este projeto adiante e eu estava de plantão. Veio um novo prefeito, desta vez do PMDB, partido que havia sido contra o projeto, tudo foi esquecido e deteriorado rapidamente. Neste tempo, o doador do terreno, um professor conhecido e bem intencionado da cidade, chamado Abraozinho, foi encontrado agonizando depois de levar um tiro. Após sua morte e findo o prazo dado à cidade para a construção do observatório, o terreno foi devolvido à gentil família Aun. Foi o fim de um sonho que levou máquinas de terraplanagem para construir a estrada de acesso ao topo do morro e que nos serviu no início da trilha.
Nossos jipes passaram por sobre a pedra que um dia alojou a placa, ajudando a enterrar definitivamente este sonho. Tristes os caminhos dos sonhos que se cruzam. Não pude deixar de sentir um aperto na garganta quando entramos na trilha. Para minha sorte, quando saí dela, um outro sonho me aguardava, fazer parte de um grupo maravilhoso de companheiros jipeiros. Como disse no início deste texto, a vida é feita de desencontros. Fica mais este em nossa história.
Por Paulo Bedaque